Baudelaire fez da figura do flâneur o protótipo do sujeito moderno. Tratava-se de um andamento muito particular, um apalpar na materialidade moderna, toda ela incrível. O próprio poeta descreve sua vagabundagem pelos bulevares de Paris como uma exploração das gamas perceptivas da cidade. Isso se fazia pelo vagar errante, gracioso e fortuito que mantém a percepção aberta para experiências de toda ordem. Perder-se nas malhas urbanas ou, como prefere Maffesoli, deixar-se levar pelas vagabundagens iniciáticas, constitui o cerne da flânerie. A natureza do flanador não deriva do arquétipo banal do burguês, mas da particular produção de sentido que a cidade possibilita ao cidadão: indivíduos que sentem a cidade.
O flâneur reinventa a cidade a cada passeio, interpreta a infra-estrutura amealhada de qualquer significação para aqueles que não compreendem suas peculiaridades, sua modernidade. O tecido urbano é grafado por um estriar singular, conjugando sua superfície e forjando um texto de significação privada. Seus estetas agem por apreensões individuais e nem mesmo suas remissões se dão coletivamente. A própria maneira de tecê-las: andar, apalpar, errar por caminhos não definidos define as categorias de apreensão pautadas por um ritmo próprio, que se preocupa tão somente com metáforas pessoais para a significação do espaço. Toma-se o espaço público como propriedade privada, e sentimentos de pertencimento são forjados por emulsões incoerentes que só se reúnem na unidade artificial do flâneur.
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